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Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/116

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Collecção Antonio Maria Pereira

― Oh senhores! grita um congressista ― então hoje não ha Cherry Cordeal?

Mas eis que aparece à entrada, aos pulinhos, um grilo já todo russo, correndo pressuroso, distribuindo tiras de adesivo pelos feridos, abraçando os contudidos e espalhando sorrisos por todos.

Em breve se restabelece a harmonia.

― Agora fala o Demostenes da assemblêa.

Escalpelisa os dirigentes e a sua acção revolucionaria e politica, formulando sínteses, vibrando epigramas.

A liberdade civica estava dependente do primeiro denunciante, e as garantias individuaes de lei ad-hoc formuladas sem tino e escritas com odios!...

A assistencia tremia de indignação, perante o sudario de contradições, inepcias e desvairamentos que êle desenrolava e agitava aos olhos espantados e surpresos dos ouvintes.

Os aplausos reboaram no espinhoso recinto, calorosos e formidaveis, agitando as folhas dos fetos como se estes fossem sacudidos por furioso vendaval: e, em menos de um segundo, o orador era arrebatado da tribuna e passeado ao colo, numa ceára de bracinhos erguidos, que davam palmas e agitavam folhinhas, de todas as côres, numa loucura de apoteóse, enquanto outros berravam:

― Fóra! fóra o canastrão!

Entretanto, isolado a um canto da sala, um grilo, o mais feio de todos, roia sofregamente as negras antenas, forjando epigramas e desforras.