Página:A escrava Isaura (1875).djvu/178

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— D. Elvira, — lhe disse com voz grave e commovida, — se a senhora é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deosa. O meo coração ha muito já lhe pertence; sinto que o meo destino de hoje em diante depende só da senhora. Funesta ou propicia, a senhora será sempre a minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor de uma fortuna consideravel; tenho posição honrosa e respeitavel na sociedade; mas não poderei jamais ser feliz, se a senhora não consentir em partilhar commigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.

Estas palavras de Alvaro, tão meigas, tão repassadas do mais sincera e profundo amor, que em outras condições terião cahido como balsamo celeste sobre o coração de Isaura a banhal-o em ineffaveis effluvios de ventura, erão agora para ella como um atroz e pungente sarcasmo do destino, um hymno do céo ouvido entre as torturas do inferno. Via de um lado um anjo, que tomando-a pela mão com um suave sorriso mostrava-lhe um eden de delicias, ao qual se esforçava por conduzil-a, emquanto de outro lado a hedionda figura de um demonio atava-lhe ao pé um pesado grilhão, e com todo o seo peso a arrastava para um golphão de eternos soffrimentos.

E’ que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfianças, durante uma pausa tinha notado os mo-