Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/119

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em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações, que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de está gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos eremitas, que viviam no deserto de raízes e de agua das fontes...

—­Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois raízes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem a sôpa e o toucinho á espera d’elles?

—­Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n’essa cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!

—­Confessar é parolar; ora adeus!

—­Tu estás doido, alma pérdida?!

—­E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?

—­Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda maïs terei de ouvir?!

—­Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os santos... de pau.

—­Vamos, vamos—­disse o Herodes, intervindo.—­Não vale zangarem-se por causa d’isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos entre marido e mulher. Você,