Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/147

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te; para isso tornava-se indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n’aquella massa granitica e os toscos degraus, com que uma arte rudimentär procurára facilitar, por aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.

As difficuldades para Henrique eram continuas.

A cada momento os embaraços d’este forneciam motivo para risos da parte de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse d’aquillo.

Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia maïs surprehendente e maravilhosa.

Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.

As nevoas d’aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a belleza do quadro.

Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes maïs e maïs o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos canteiros de um jardim.

Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectáculo lhe causava.

—­É magnifico! é admiravel! é soberbo!—­dizia elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.

O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os montés a sua patria, e que a melancolía nostalgica, que o opprimia na planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.

Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.

Era está causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.

Henrique continuava a ser todo attenções e ga-