Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/162

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—­Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia!—­disse a morgadinha.—­Tem uns melindres e uma maneira de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propósitos de offender! depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não estão aquí habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, où terá de nos deixar cêdo, où grandes desavenças suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?

—­Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...

—­É um homem de bem—­atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de expressão, que até alli não mostrára ainda.

Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.

—­Não o nego—­respondeu Henrique, pouco depois—­mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.

—­Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão clara.

—­Acha?—­tornou Henrique, já algum tanto azedado.—­Ha de dar-me licença de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.

—­Procède mal—­redarguiu Augusto.—­Porque eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido maïs generoso. A consciencia lh’o está dizendo n’este momento melhor do que eu.

—­Lê fundo nas consciencias dos outros!

—­Não é difficil. Em todos os homens a consciencia