Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/196

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somno, tem aquelle costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d’ellas. Mas vamos.

—­Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?

—­Trouxe.

—­É verdade; e a filha d’elle? A Lindita?

—­Já cá me ia tardando a pergunta—­notou a morgadinha, rindo.—­Essa anda contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.

—­Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.

—­Então devéras esse coração está assim tomado?

—­Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d’aqui vou. Cá me fica; e uma grande parte d’elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que estado m’o entregas?

—­Muito doente.

—­Sim? E o teu?

—­O meu? Ah! nem eu sei d’elle. Olha; isto de corações são como as creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas inspiram tal confiança, que nem sequer n’ellas se pensa. O meu coração é um modelo de serenidade.

—­Então ainda nenhum cavalleiro errante où trovador...

—­O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d’estas immediações, capaz de férir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o sr. Joãozinho das Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que...

—­É verdade—­disse Angelo, rindo—­lá vi tambem esse javali na venda do Damião Canada. Mas... Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de dizer umas coisas.

—­A mim? A respeito de quê?

—­Do teu coração.