Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/277

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Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.

A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorológico, rompendo pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os gêlos dos montés e os gêlos da velhice.

O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.

Era dia santo entre os que maïs o são; e os dias santos na aldeia teem uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas arvores das nossas praças e jardins.

Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia santo, com um vestuario maïs asseiado, com um prato maïs exquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar n’esses dias, exactamente como em todos os da semana,