Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/279

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da maneira por que elle tinha passado a noite.

Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando, desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo maïs natural, sem timidez nem audacia.

Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Magdalena.

—­Bons dias, prima Magdalena,—­disse Henrique, estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador.

Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:

—­Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos hábitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me de prévenir que respeitassem a indolencia cidadã.

—­Eu é que não consentia:—­disse o conselheiro—­na aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são maïs tardias.

—­Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu quarto.

—­Eu não pude dormir toda a santa noite—­disse D. Dorothéa.—­Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...

—­Ó prima, não vá sem resposta—­disse D. Victoria—­que tambem eu não puz olho, e maïs sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.

—­Não, minha senhora; eu não senti rumor.

E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente n’aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.