Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/299

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dissemos, todo o periodo das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa que mereça nota.

Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural está ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d’elles e os dissipava com uma palavra.

Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.

Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir á solemnidade popular.

Já por vezes temos ouvido falar n’este auto, que promettia ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia desempenhar.

Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira deixou ficar pelo chão.

Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado maïs fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão apreciadas ainda na Hespanha.

Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro où pateo de quinta um tablado; veem ador-