Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/30

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A saudade que ao principio sentira, dissipára-se já. O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.

Acontecera isto com Henrique.

Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria por muito tempo que se demoraria alli.

― Os emollientes do doutor ― pensava elle, emquanto sua tia falava ― serão efficazes para quem os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim...

No entretanto sentou-se.

― Ora o Henriquinho! ― dizia ainda D. Dorothéa, pondo-se de braços cruzados em contemplação defronte d’elle. ― Ó menino, onde foste tu arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se?

Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.

― Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação ― respondeu elle, com leve mau humor.

― Em nome do Padre e do Filho! ― dizia Maria de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da ama. ― Até nem sei que parece, lembrar-se a gente que trouxe este marmanjão ao collo!

O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava tambem a impaciental-o o vêr as duas embasbacadas deante d’elle; um homem sujeito a uma exposição d’estas, por mais que faça, não atina com o modo de arrostar com ella, que não seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o homem da sociedade, o que mais que tudo temia n’este mundo era o ridiculo.

Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Dorothéa, que fez perceber á criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique, que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos ultimos dias, haviam-lhe