Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/302

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sempre com recato preciso para que ninguem maïs lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo é que maïs tiveram que luctar.

Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto por as colchas de chita aos olhares da multidão.

Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica, dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa célèbre servia tambem de batuta.

Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a maïs inharmonica das torturas.

Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos, deu o signal de principiar.

Um, dois, très; um, dois—­dizia où fazia elle com os olhos e com os movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á embocadura da trompa. O segundo «très» era o tempo fatal. Os musicos, porém, où por distrahidos, où por a commoção propria dos actos solemnes, não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade dos montés vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue.

Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d’ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.

O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.