Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/322

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
48

pequena tinha espirito—­disse Maria de Jesus, com ar de mysterio.

—­Olhem o milagre!—­respondeu D. Dorothéa.—­Por essa estou eu.

—­Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a mesma.

—­Então é maïs do que certo.

—­Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!—­disse Henrique, rindo.—­Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?

—­Pois, menino, aquillo a falar a verdade!

—­E não é maïs natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?

—­Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que aquelles não calhavam bem nas lôas?

—­O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e até suspeito com que fim.

—­Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se lembra?

—­Ora se lembra!

—­Digam-me—­insistiu Henrique.—­Quem ha aquí na aldeia que faça versos?

—­Versos!—­repetiu a D. Dorothéa, admirada.—­Ninguem, que eu saiba.

—­Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deità tão bonitos versos nos desafíos?

—­Sem ser o João do Trolha—­tornou Henrique, sorrindo.

—­Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deità muito bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que elle botou?


 Viva a senhora D. Dorothéa,
 Raminho de bem-me-queres,
 Quando põe a sua touca
 É a rainha das mulheres.