Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/329

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—­Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode dizer o que sente?

Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:

—­Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!

Quando depois d’esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:

—­Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é maïs de magarefe do que de pastor?

O missionario ouviu estás palavras, pois que se voltou como se uma víbora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora.

O padre entrou para a sacristía.

No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o maïs commodamente que era possivel n’aquelle pequeño recinto.

No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e pouco attrahente do famigerado educador dos povos.

Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com firmeza.

Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:

Emfim soltou o texto latino do sermão.

Seguiu-se nova pausa, e principiou.

Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas páginas humoristicas da Vida e opiniões de Tristam Shandy, um sermão sobre a consciencia, eu não ouso transcrever para aquí o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo missionario n’aquelle dia.

Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o