Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/41

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que, com o coração apertado, atravessára na vespera, parecia outra.

O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas galas do Minho, tinham nunca repousado.

O inverno despojára parte d’essas galas; embora! Até da propria nudez de algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons escuros de melancolia?

Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se cançava de admirar aquella scena.

Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n’um momento, elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.

Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite?

Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d’alli, os mais pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle, opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel e gradualmente com uma amenissima collina.

Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos,