Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/42

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desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições a pastel da mão de Pillement.

A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava observando.

― É preciso sair! é preciso sair! ― disse Henrique comsigo. ― Quero vêr isto de perto; quero entranhar-me n’estes bosques, quero trepar por aquelles montes, debruçar-me d’aquellas ribanceiras.

E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa toilette, saiu do quarto.

Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.

― Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?

― Deliciosamente minha querida tia ― respondeu elle, abraçando-a com maior affecto e bom humor do que na vespera.

O que é sentir-se a gente bem!