Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/423

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
149

O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.

A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.

O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.

— Que querem d’aqui? — perguntou elle, fitando-os — com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?

— Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio — respondeu o sr. Joãozinho.

— É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui! — confirmaram differentes vozes.

— Por quê? — continuou o padre — julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?

— Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!

— Eu não lhes reconheço o direito de querer.

— Ora o padre mestre tem vagares! — disse o façanhudo Cosme — e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d’ahi.

E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.

— A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n’esse cadaver, que está