Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/507

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


Que era feito d’aquella energia, com que se revoltára contra as perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir nobremente as ironías de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da sua innocencia.

Que é feito d’essa energia?

O que é feito d’ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder por mim, se és uma d’essas víctimas, para quem a sorte parece personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios lentos.

Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder superior.

A razão maïs clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e eivado d’esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.

Então encontra-se quasi um d’estes prazeres paradoxaes, a que é tão sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade.

Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade o insulto e a calumnia: sorrira