Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/544

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isso maïs desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem arrependo do passo que dei. Não fiz maïs do que salvar do desespêro uma alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n’essa perda. Quiz evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m’a não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel como...

O pae atalhou-a, e cada vez com maïs vehemencia replicou:

—­Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição, especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa, sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula sensibilidade.

Antes do conselheiro concluir estás palavras estava alguem maïs na sala.

Era Augusto.

Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar.

O conselheiro, reparando de subito n’elle, interrompeu-se e parou.

Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza:

—­Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n’esse triplice infortunio outros tantos títulos para ser respeitado dos felizes, como v. ex.^a, e eu não prescindo d’esses direitos.

O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse responder a Augusto. A irritação