Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/547

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
273

respeitosamente deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um extremo olhar de despedida.

A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão disse:

— Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia.

— Magdalena! — disse o conselheiro com severidade.

— Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente depois.

— Magdalena! — repetiu o conselheiro com mais fôrça.

— Minha senhora! disse Augusto.

Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter apaixonado.

— Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia d’elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o, porque seria acreditar na constancia d’essa má paixão que o domina, e no seu bom coração não pode ella durar muito tempo.

O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper esta scena e modificar a feição critica do caso.