Página:Ao correr da pena.djvu/148

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boa meia hora a esgrimir-nos contra um sim ou um não, que se encastelam nalguma boquinha arrebitada, donde não há força tira-los.

Ao menos se o sim fosse constante, eu começava logo por pedir alguma coisa que me conviesse. Mas qual! O sim e o não se revezam como duas sentinelas sempre alerta e prontas a impor o respeito à menor infração da disciplina. Por conseguinte, o melhor é tomar-se o expediente de que uso - fazer-lhes a continência, e passar de largo.

Mas onde já ando eu? Comecei num salão de baile, e parece-me que estou nalgum corpo de guarda. Eis aí o risco de escrever ao correr da pena. Se eu tivesse um compasso e um tira-linhas, não me havia de suceder semelhante coisa. Riscaria primeiramente o meu papel, escreveria o meu artigo letra por letra, pensando maduramente sobre cada palavra, refletindo profundamente na colocação dos pontos e vírgulas; depois convocaria um conselho de sábios, e, discutido o artigo em conclusões magnas, entrega-lo-ia ao compositor, quando se findassem os nove anos de correção que impõe o preceito da Arte Poética. Então, cheio de entusiasmo ao contemplar o meu artigo metido entre quatro gravuras de pau, exclamaria como Sanzio : Anch'io son pittore! Agora já posso aspirar à honra de escrever um artigo i lustrado!

O que é verdade é que já não sei onde deixei a nossa agradável soirée, na qual se dançava com tanto prazer e animação o Ril da Virgínia, dança que daqui a alguns dias deve estar com muita razão no galarim da moda. E sobre isto desejo comunicar aos diretores das sociedades uma observação que fiz a propósito deste dançado. Tenho notado que, depois de um ril, cada um daqueles turcos transforma-se num cossaco temível; e então não há empadas nem chocolate que os farte. A respeito de gelo não falemos; seria necessário algum Himalaia ou Chimborazo feito sorvete. Por isso a moda tem muito razoavelmente destinado a dança para o fim da noite.]