Página:Ao correr da pena.djvu/318

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Cessem, pois, esses escrúpulos irrefletidos que muitas vezes cortam uma carreira e falseam uma vocação decidida.

Quantos grandes pintores da Itália e o mundo inteiro não teriam perdido, se o desprezo pela arte e os maus conselhos tivessem abafado na alma do artista o fogo sagrado, fazendo de um Ticiano e de outro um mau advogado ou um péssimo fidalgo?

Quem sabe também quanta menina pobre e quanto moço sem fortuna há por aí por esta grande cidade, e cujas esperanças não passam de um obscuro casamento ou de um emprego mesquinho, e que entretanto têm em si o germe de um brilhante futuro, perdido talvez por uma falsa idéia da arte?

Atualmente todo o mundo entende que seu filho deve ser negociante ou empregado público: e, tudo quanto não for isto é um desgosto para a família. Quanto à classe rica e abastarda, esta não quer outra coisa que não seja o sonoro título de doutor.

Doutor atualmente equivale ao mesmo que fidalgo nos tempos do feudalismo. É um grau, um distintivo, um título, uma profissão, um estado.

No tempo da revolução, os fidalgos, os condes, marqueses e barões emigraram e fizeram-se torneiros, sapateiros, pintores e mestres de meninos

É provável que daqui a dez anos, com a fertilidade espantosa das nossas academias, o mesmo venha a suceder aos doutores.

Tudo isto, porém, parte de um grande erro.

Todas as profissões encerram um grande princípio de utilidade social; todas, portanto, são iguais, são nobres, são elevadas, conforme a perfeição a que chegam.

Um mau discurso de deputado não vale um gorjeio ou uma volta da Charton. Um poema insulso, uma poesia sem sentimento não se compara a uma cena pintada por Bragaldi. Um desenho sem gosto não prima sobre as formas elegantes e graciosas que o nosso artista Neto costuma dar a um móvel trabalhado por ele.