Página:Ao correr da pena.djvu/320

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por um capricho do acaso, tornou-se filho de uma rainha de Inglaterra.

O caso é que tão mau como se diz que foi Henrique VIII, se ele não tivesse feito as suas brejeiradas, nós não teríamos passado antes de ontem uma tão bela noite.

O que foi esta bela noite sabem os leitores: foi música de Donizetti cantada por Bouché e pela Charton.

Ora, dizer que o Bouché cantou bem seria repetir o que já disse, e isto é sempre monótono e aborrecido.

Quanto a Charton, que brilhou no romance e no rondó final, já não tenho nada de novo que escrever.

Portanto, como os meus leitores não poderiam suportar que lhes falasse do Teatro Lírico sem falar de sua cantora predileta, não há remédio senão, depois de esgotados os prós, recorrer aos contras .

De agora em diante vou estudar-lhe os defeitos, e afinar o ouvido para ver se ela canta em si bemol ou em la sustenido.

Naturalmente hei de descobrir alguma coisa, assim como já descobri que Casaloni canta pelo nariz e que o Capuri é ventríloquo.

Não se admirem se me calo sobre Ghioni, a nova comprimária, que fez nessa noite a sua estréia. Depois que Dufrene me enganou com as suas maneiras estudadas, não arrisco o meu juízo senão depois da terceira representação.

Entretanto, enquanto nada me animo a dizer, ficam sabendo que a nova comprimária tem uma bela figura em cena, e que foi aplaudida depois da ária do segundo ato.

O vestuário era todo novo, rico e a caráter. Henrique VIII estava trajado com muito gosto; mas Ana Bolena tinha um feio roupão de veludo roxo dobrado de cetim azul com uns galões de cor duvidosa, que por felicidade ficou esquecido à vista do elegante vestido de cetim preto com que apresentou no último ato.

Todo este vestuário veio-nos instruir de uma verdade que não se encontra nos livros de histórias; e é que naquele tempo os homens usavam de coleira e as mulheres de asas.