Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/239

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— Deita cá a barca; deita cá a barca.

E n'isto ia com a mão á cabeça e dava uma coçadella. O irmão, que era ranhoso, passava as costas da mão pelo nariz, e dizia:

— Atravessa; atravessa.

O que estava cheio de sarna, pôz-se a pular e a saracotear-se, e dizia:

— Inda bem, inda bem,
Que a barca já lá vem.

(Porto.)




Variante

O que era tinhoso, levava a mão á altura da cabeça, e coçando como quem não quer a coisa, dizia:

— Lá vem um navio.

Dizia o que era ranhoso, assoando-se ás mangas:

— Tanto se me dá que venha por aqui, como por ali.

(Ilha de S. Miguel.)




86. DÁ-ME O MEU MEIO TOSTÃO

Um compadre perseguia outro por uma divida; todas as vezes que lhe passava pela porta dizia:

— Dá-me o meu meio tostão.

O devedor, vexado, disse para a mulher que se ia fingir morto, e que ella o carpisse muito, para vêr se quando o compadre passasse lhe perdoava pela sua alma o meio tostão. Assim fez; a mulher pranteou e depenou-se, mas o compadre veiu ao acompanhamento do enterro, e quando o corpo se depositou na egreja deixou-se ficar escondido debaixo da eça. De noite os ladrões entraram na egreja, e como viram a luz das tochas allumiando o