Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/247

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— Oh meu pae, deixe-me ir ter com o fidalgo, que eu heide arranjar a cousa de modo que elle não tenha remedio senão dar a perdoança das medidas.

— Mas tu não atas cousa com cousa.

— Por isso mesmo.

Foi o tolo e pediu para fallar ao fidalgo, dizendo que vinha ali pagar a renda. O fidalgo mandou-o entrar, e elle então disse:

— Saberá vossa senhoria, que a anneza foi má, mas isso não faz ao caso; meu pae tinha tantos cortiços de abelhas que não lhe dava com a conta; pôz-se a contar as abelhas e acertou de lhe faltar uma; botou o machado ás costas e foi procurar a abelha; achou-a pousada na carucha de uma amieira; vae elle cortou a amieira para caçar a abelha, que por signal vinha tão carregadinha de mel, que elle crestou-a, e não tendo em que guardar o mel metteu a mão no seio e tirou dois piolhos e fez da pelle dois odres que encheu, mas quando vinha a entrar em casa uma gallinha comeu-lhe a abelha; atirou á gallinha com o machado para a matar, mas o machado perdeu-se entre as pennas; chegou o fogo ás pennas, e depois que ellas arderam é que achou o olho do machado; d'ali foi ao ferreiro para lh'o arranjar, e o ferreiro fez-lhe um anzol, com que foi ao rio apanhar peixes, e saiu-lhe uma albarda, tornou a deitar o anzol e apanhou um burro morto ha trez dias que pestanejava; botou-se a cavallo n'elle e foi ao ferrador para lhe dar uma mézinha, e elle deu-lhe o remedio de summo de fava sêcca, mas n'isto caiu-lhe um boccado n'um ouvido, onde lhe nasceu tamanho faval, que tem dado favas e comido favas, que ainda ahi trago quinze carros d'ellas para pagar a renda a vossa senhoria.

O fidalgo já enfadado com tanta patranha disse:

— Oh rapaz, tu mentes com quantos dentes tens na bocca.

— Pois, senhor, está a nossa renda paga.

(Airão.)