Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/300

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do seculo XIV bastantes contos intercalados no livro ascetico do Orto do Esposo, e na traducção da lenda mystica de Barlaam e Josaphat, tirada do Lalita Vistara, sendo Buddha sanctificado no christianismo. No Nobiliario do Conde Dom Pedro, o conto de Gaia é tambem nos seus episodios similhante ás narrativas arabes, das quaes persiste no gosto popular ainda a folha volante da Donzella Theodora.

A divulgação da poesia provençal veiu ajudar ao desenvolvimento da fórma litteraria dos Contos, com os Noellaires; temos um exemplo na tradição da Chuva de Maio, de que ha reminiscencias em um poeta do Cancioneiro de Resende, em Sá de Miranda e D. Francisco Manoel de Mello. Os jograes abandonavam por vezes os assumptos lyricos, e contavam fabulas ou narrativas com um intuito satyrico. O jogral Martins Moxa, que dizia:

D'estes privados non sei noellar

refere-se ás fabulas da sua classe:

Uns joglares
Sus nobles falares
Soyam dizer…

Comprehende-se o sentido d'estes versos pelo que Affonso XI dizia a Ramon Vidal, ouvindo-lhe um fabliau: «Jogral, tuas fabulas são agradaveis e formosas.» Devido talvez a esta influencia jogralesca e á propagação dos fabliaux francezes, é que os contos vieram a receber em Hespanha, embora no seculo XVI, o nome de Francias. A influencia bretã é tambem manifesta na fórma dos lais, que além do seu destino musical tinham um accentuado caracter narrativo, que veiu a desenvolver-se no cyclo da Tavola Redonda. No Nobiliario do Conde D. Pedro é onde existem os principaes vestígios dos contos bretãos; no