Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/341

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samente e arteyramente como cumpriria sua maa vontade. E tomou huum firmal de prata que era de grande preço e deuho em guarda aaquella molher. E depois furtouo em guisa que o ella nom soube, e lançou o firmal en o mar, por tal que nom lho podendo ella dar, ficasse por sua serva, e assy cuydava husar com ella como lhe prouguesse. E depois que esto fez demandou o firmal aa boa molher. E ella entendeo o engano que lhe fora fecto e acorreusse a huuma sancta virgem que avia nome brigida, e estando con ella veeo huum homem que trazia pexes do mar que elle tirara. E quando abriram hum delles acharom en o ventre delle o firmal, e deuo a boa molher aaquelle homem maao. E assy ficou vaão o seu pensamento e sua arteyrice.

(Fl. 105.)




143. OS QUATRO LADRÕES

Contam as historias antigas que em Roma eram quatro ladrões. E andando huuma nocte a furtar sintirom a Justiça e fugirom e esconderomse em huuma cova. E quando a luz veeo, acharomse em huuma casa de abovada muy fremosa. E acharom em ella huum moymento de marmor muy fremoso. E disserom antre ssy:

— Este moymento foy de algum homem nobre e ryco. Abramollo e vejamos se acharemos hy algum bem. Ca em outros tempos acostumavam soterrar os grandes homens com doas e cousas de grande preço.

Entom abrirom o moymento e acharom o moymento cheo douro e de prata e de pedras preciosas e de vasos e de copas douro muy fremosas. E antre elles era huuma copa muy fremosa e mayor que todallas outras. Quando esto acharom, disserom antre ssy:

— Ora somos nós ricos e de boa ventura, e seremos