Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/403

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— Senhora, perdoae-me não acceitar antes de agora o que me pedistes, que eu conheço que errei e quero fazer o que me mandardes.

E assim se foi ella a sua pousada e ali em mãos do cura prometteu e jurou de a receber por sua mulher; porque sem isto não lhe quiz ella dizer cousa alguma. E tanto que perante testemunhas foram jurados, ella lhe aconselhou o que devia de fazer aquella noite e o que havia de dizer ao outro dia apresentando-se na relação diante de elrei. Vindo a menhã, quando foram horas e soube que estava elrey com os desembargadores na casa de despacho se foi lá, e lhe fez saber que estava ali, que se vinha livrar. Elrey mandou que entrasse, maravilhando-se todos de sua ousadia; e elle entrando disse o seguinte:

— Mui alto e poderoso rei e senhor nosso, ainda que vossa alteza está manencorio, a seu parecer com rasão, se me ouvir diante d'estes fidalgos e letrados com animo desapaixonado, e de sua pessoa que será a principal testemunha do que disser, ficarei desculpado e corri muita honra; para o qual somente lhe peço por mercê me queira ouvir, até que acabe de todo o que quero dizer: Havendo quatro annos, pouco mais, que vossa alteza era casado com a rainha, vendo que ella não paria, desejoso de ter filhos era afeiçoado a mulheres, e a ella não mostrava tanto amor como no principio. Por lhe ganhar a vontade, aconselhada de outras mulheres se fingiu prenhe, e assim haveria princepe no reino e vossa alteza lhe teria mais amor. O que tudo se ordenou e fez como ella pedia, e as parteiras lhe trouxeram um filho de uma pobre mulher, que morava fóra dos muros da cidade, cujo marido era um cavouqueiro. Isto tudo se fez com tanto segredo, que nunca té hoje foi descoberto. Com esta imaginação a rainha adoeceu de enfermidade de que morreu, dando primeiro conta a seu confessor do que fizera. Verificado não ser princepe o que cuidavam que o era, fi-