Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/428

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a ganhar a vontade e benevolencia do pae, servindo-o em tudo e gosando-se elle dissimuladamente do bom successo que surtira o estratagema. Passado algum tempo adoeceu de morte o velho, e chamando as filhas e os genros, disse-lhes ser chegada a sua ultima hora, e que assim tanto que expirasse, acabados os suffragios, receberiam dos Frades a chave da caixa, a qual abrissem, porque de quanto estava dentro as deixava egualmente por herdeiras. Apenas o bom velho expirou, promptamente se disseram as missas, e recebendo as filhas com alvoroço a chave, abriram a arca mui ligeiras, mas não estava dentro uma só moeda; sómente acharam um malho, que tinha estas letras ao redor escriptas:

«Com este malho se dê na cabeça de quem não tratando de si, deixa a sua fazenda a outrem.»

(Padre Manoel Consciencia, Academia universal de varia erudição, p. 95.)




176. A USURA DE NOSSA SENHORA

Um onzeneiro famoso foi avisado e castigado com lepra. Tendo já quasi esgotada a medicina e a bolça, por ultimo remedio recorreu á Senhora do Loreto, promettendo-lhe se sarasse, offerta de cem escudos de ouro. Foi ouvido e restituido á saude brevemente. Os amigos, aproveitando a occasião o amoestaram, não tornasse a manchar a sua alma com aquelle vicio da usura. Respondeu:

— Se fôra vicio esse que dizeis, não levára a Senhora cem escudos por curar-me.

(Padre Manoel Bernardes, Estimulo pratico, Exemplo V.)