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ENEIDA. — LIVRO I.


Com os dons nos ossos á raínha infiltre
Insano fogo. A estancia ambigua, os Tyrios
Bilingues teme; Juno atroz a inflamma;
Tresnoitada a pensar, por fim conjura
       695O alígero Cupido: «Ó filho, esteio
Unico e meu poder, filho, que em pouco
Tens as typhéas soberanas armas,
Es meu refúgio, teu soccorro imploro.
Sabes que a teu irmão de praia em praia
       700Fluctívago arremessa a iniqua Juno,
E doe-te a nossa dôr. Com mil caricias
Tem-no a Sidonia Dido; e o paradeiro
Dos junonios hospicios mal enxergo:
O ensejo he de tental-a. Eu receosa
       705Previno os dolos, accender projecto
A raínha; que um nume a não trastorne,
Mas firme, quanto eu mesma, a Enéas ame.
Ouve o como ha de ser. O infante regio,
Desvelo meu, do genitor chamado,
       710Levar a Byrsa as dadivas propõe-se,
Das vagas restos e das teucras chammas.
Sopito em somno o esconderei no idalio
Jardim sacro, ou nos bosques de Cythera,
Porque os ardis não turbe inopinado.
       715Tu nelle te disfarça uma só noite,
Do menino as feições veste menino;
E, entre o lieu licor e as reaes mesas,
Quando em seu gremio Dido, em cabo leda,
Amplexos te imprimir e doces beijos,
       720Fogo lhe inspires e subtil veneno.»

Á voz da cara mãe depondo as azas,
Finge gozoso Amor de Iulo o porte.
Ella em somno abebera o neto amado;
No collo amima e o sobe ao luco idalio,
       725Onde molle e suave mangerona,