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ENEIDA. — LIVRO I.


Pede-a logo a raínha, e do mais puro

Enche a taça, que desde Belo usaram
Seus avós. Nos salões tudo em silencio:
«Jupiter, se he que aos hóspedes legislas,
       765Tam fausto alegre dia aos meus e aos Phrygios
Faze aos vindouros memoravel: Baccho
Porta-jubilo assista, e a boa Juno;
Vós o convite celebrai-me, ó Tyrios.»
  Em honra então na mesa o vinho entorna,
       770Com seus labios o toca, e o dá libado
A Bycias provocando: elle aguçoso
Empina a espumea taça, em transbordante
Ouro se ensopa: toda a côrte o imita.
Logo entoa as lições do sabio Atlante
       775Em aurea cithara o crinito Iopas:
Canta a solar fadiga, a Lua instavel;
Donde homens e animaes, bulcões e raios;
Donde o nimboso Arcturo, e os Triões gemeos
E as Hyadas provêm; como apressados
       780Se tingem no aceano os soes hybernos,
Ou que demora estorva as tardas noites.
Penos e Troas á porfia o applaudem.
  O serão entretida ia estirando
A infeliz Dido, e longo o amor bebia,
       785Müito de Priamo, inquirindo müito
De Heitor; que armas da Aurora o filho tinha,
Diomedes que frisões; que jando Achilles.
  «Do princípio antes, hóspede, as insidias
Graias, dice, nos conta, e o patrio excidio,
       790E errores teus; que já seteno estio

De praia em praia todo o mar voltêas.»[1]




  1. No original de Odorico, faltam estas aspas, óbvio erro tipográfico.