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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


encimado pela corôa real, sobre almofada de estofo igual ao do panno.

Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia, reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado, tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam encravadas com pregos de arame.

Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada, apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.

A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão esquerda.

Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.

A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.

Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!

A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido por Benevides nas Rainhas de Portugal, fôra uma bonita mulher, de feições