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MÃI E FILHOS




II
A faca do marquez de Cascaes

O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.

Entrou, com uma faca na mão, na camara real, em occasião que o monarcha dormia profundamente.

Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licença para dizer uma grande verdade.

D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente a cabeça ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, não para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande verdade muito fria!

Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crédor, violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. É lá coisa que possa tolerar-se!

Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mão, limitou-se a dizer:

—Lá vem o marquez com alguma das suas!

Ora se tudo isto não basta para caracterisar um rei! Accordam-no de repente, e não se zanga! mettem-lhe uma faca na mão, e fica com ella! pedem-lhe licença, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o rei responde bonacheironamente: «Pois diga lá!...»

É preciso não ter... alma!