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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


lhe as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.

Mas como poeta e exilado, comprehendia a solidão dolorosa de Petrarcha em Valchiusa, á beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se juntando idealmente as suas angustias ás do poeta que, tendo alli cantado um seculo antes, vivêra solitario como elle e como elle perseguido pela fatalidade do destino.

Entrado o anno de 1489, o espirito de Fernão da Silveira principiou a ser assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava reprimir.

Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creança de pouco mais de oito annos, não lograva serenar.

Imprecava violentamente D. João II, que continuava a denominar o tyranno de Portugal.

Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justiça do céo havia de cahir tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do coração, se aquelle coração tinha alguma coisa de humano. Parecia que Fernão da Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da corôa.

Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D. João II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da liberdade.