Página:Historias de Reis e Principes.djvu/320

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de vaga tristeza, aliás justificada. Uma numerosa tripolação ia affrontar os perigos do oceano, lançar-se nas incertezas de uma navegação aventurosa.

Chegados junto aos bateis Vasco da Gama e os seus companheiros, o vigario da ermida, com voz solemne, proferiu uma allocução piedosa, acabando por lançar a absolvição.

«No qual acto, escreve João de Barros, foi tanta a lagrima de todos, que n'este dia tomou aquella praia posse das muitas que n'ella se derramam na partida das armadas que cada anno vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir: de onde com razão lhe podêmos chamar praia de lagrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm. E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes segundo seu uso deram aquelle alegre principio de caminho, dizendo boa viagem: todos que estavam promptos na vista d'elles, com uma piedosa humanidade dobraram estas lagrimas: e começaram de os encommendar a Deus, e lançar juizos sobre o que cada um sentia d'aquella partida!»

Eram oppostos os juizos e as vozes que commentavam a empreza. Muitas pessoas se mostravam contrarias a ella. De modo que o velho da Praia do Rastello representa uma prosopopêa historica quando exclama pela bocca de Camões:

Oh gloria de mandar! Oh vã cobiça
D'esta vaidade, a quem chamamos fama!
Oh fraudento gosto que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!