Página:Historias de Reis e Principes.djvu/321

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Que castigo tamanho, e que justiça
Fazes no peito vão, que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade n'elles experimentas!


* * *

Mas Deus protegêra a audacia dos portuguezes, os mares abriram passagem á frota de Vasco da Gama, e a India, descerrando de par em par as portas crystallinas dos seus golphos, desde Cambaya a Bengala, inclinava, rainha do Oriente, a fulva cabeça, radiante de auroras, ao dominio colonial do nauta do Occidente.

As lagrimas choradas na praia do Rastello, quando a frota levantava ferro, vieram-nos devolvidas em perolas arrancadas ao oceano Indico no golpho de Manaar e nas costas de Ceylão.

A melancolia que avassallava os espiritos, na hora em que Vasco da Gama partiu, transmudára-se, só com passar pelo chrysol da India, no oiro luminoso de Quiloa, que mestre Gil Vicente ou outro qualquer notavel artifice do seculo XVI arredondára n'um disco—a famosa custodia dos Jeronymos—, tão bello como o sol, tão resplendente como elle.

E depois de terem dobrado duas vezes o Cabo das Tormentas, depois de terem vencido Adamastor duas vezes, as galés d'el-rei subiam em triumpho a corrente do Tejo, á volta do Oriente, e toda a alma