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JORNAL DAS FAMILIAS.


da filha; ele veio de si mesmo; duplo sonho realizado, porque não só arranjou a filha, como reformou a louça da casa, que estava deficientíssima.

Uma só pessoa faltava: o sr. Mateus; mas a ausência era compensada pela herança.

Os meses correram, depois os anos; vieram os filhos. O barbeiro, que a troco de 15 votos, perdera quinze fregueses, tinha rompido as relações com José Cândido, mas nos últimos tempos reconciliara-se. José Cândido foi perdendo, uma a uma, suas paixões e ilusões da juventude. Sacrificou o amor da vadiação e as eleições. Sobre este ponto, ele explicava tudo e mais que tudo, exceto uma coisa, para ele metafísica e inextricável.

— Por que razão, dizia ele, às vezes, consigo, eu, que ajudei os outros a vencer, não pude vencer naquele dia?

E pensando assim, brilhavam-lhe diante dos olhos os 37 votos. Ele lisonjeava-se já com esse número escasso; falava dele com certa fatuidade. Às vezes, conversando com o barbeiro, diziam ambos, para recordar um fato e uma data:

— Foi no ano da nossa luta eleitoral.

E ao dizer isso, José Cândido parecia inchar, subir, trepar às eminências; sentia-se superior; seus olhos derramavam um olhar satisfeito ao passado. Depois concertava a gravata, a mais e mais amarela, com o gesto de um homem que preencheu seus destinos; puxava o colete para baixo com outro gesto sacudido, rápido, imperioso. E o resto do dia era um deleite, uma vida luminosa, dourada, juvenil... Pobre mortais! Até a ambição é caduca.

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