Página:Luciola.djvu/107

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madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam.

Estava excessivamente pálida, e a cor escarlate do vestido ainda lhe aumentava o desmaio; os olhos luziam com ardor febril que incomodava, e os lábios se contraíam num movimento que não era riso nem ânsia, mas uma e outra coisa. Entretanto nunca essa mulher me pareceu tão bela; a idéia de que ela se enfeitava para outro homem irritava-me a ponto que estive para precipitar-me e espedaçar, arrancando-lhe do corpo, as galas que a cobriam.

— Ainda não a felicitei pelo seu novo amante!

— Quem não tem o direito de escolher, aceita o primeiro que lhe chega; e o mais ridículo é sempre o melhor.

— É naturalmente para ele que está se pondo tão bonita!

— Acha que estou bonita? perguntou com o sorriso que deve ter o condenado para o Sol nascente que vem alumiar o seu suplício.

— Nunca a vi tão fascinadora, nem vestida com tanto primor. Ele merece.

— Dizem que outrora ornavam-se as vítimas para o sacrifício.

— Isso foi outrora; mas hoje que os sacrifícios são incruentos, a vítima orna-se para o sacrificador; também em vez do sangue daquela, é o ouro deste que corre nas aras consagradas ao prazer.

Lúcia quis responder-me, mas reprimiu-se a tempo de sorver a palavra que já lhe espontava no lábio. Foi uma coisa que notei desde que começaram as nossas relações: esse espírito mordaz e cintilante, esse verbo rápido que não deixava sem resposta