Página:Luciola.djvu/150

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tenho; mas o que eu não posso, é separar-me deste corpo!

Jantamos; nunca lauto banquete foi festejado por epicuristas, como a minha modesta colação pelos dois convivas que partilhavam o mesmo prato e bebiam no mesmo copo, rindo e brigando de qual daria ao outro uma preferência mutuamente recusada.

As oito horas da noite acompanhei Lúcia a casa.

Poucos momentos depois de entrar ela foi ao toucador e voltou em traje de dormir; os cabelos soltos e uma longa camisola de linho, sem uma renda, nem um bordado.

— Já vais dormir?

— Vou deitar-me; estou fatigada; trabalhei hoje muito! respondeu sorrindo e tomando-me pela mão. Mas podemos conversar até dez horas. Durmo cedo agora.

O seu quarto de dormir já não era o mesmo; notei logo a mudança completa dos móveis. Uma saleta cor-de-rosa esteirada, uma cama de ferro, uma banquinha de cabeceira, algumas cadeiras e um crucifixo de marfim, compunham esse aposento de extrema simplicidade e nudez.

A idéia que primeiro me ocorreu foi que Lúcia tivera necessidade de dinheiro, e vendera os seus ricos trastes; isso me causou um aperto de coração.

— Por que esta mudança?

— Durmo aqui melhor. O outro quarto lá está como o senhor deixou.

— Nada lhe falta ?

— Nada absolutamente. Admira-se de que me prive da minha rica mobília, para usar de outra mais simples?

— Decerto; foi uma despesa inútil.

— Mas o senhor não sabe que posso comprar o