Página:Luciola.djvu/153

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Vi no dia seguinte correr de novo aquela mesma cortina de seda azul que abrira para mim, como nuvem serena, um céu de delícias. Penetrei o templo do prazer, que eu entrara pela primeira vez esmagado por um olhar de tão soberano desprezo. Mas não encontrei nem a antiga fragrância, nem a atmosfera tépida e embalsamada que outrora o enchia. Estava frio e triste, como um aposento por muito tempo privado de ar e luz.

Lúcia não proferira uma palavra desde a minha chegada. Muda e submissa obedecera ao meu olhar; quando a toquei, teve uma comoção violenta, verdadeiro choque elétrico. Fugiu espavorida; mas voltou logo; e caminhando para mim, entregou-se com um cínico desgarro.

Há de ter ouvido falar na sensualidade nefanda dos coveiros de cemitério, que saciavam no cadáver das belas mulheres um desejo brutal. Não creio que esses abutres da lascívia apertassem corpo mais gelado e insensível do que a múmia que se inteiriçava nos meus braços. Senti o frio horror de Virgílio correr-me pela medula dos ossos.

Lúcia atravessou o aposento com o passo hirto, e saiu. Entrou alguns minutos depois. O calor voltara à epiderme, que abrasava agora; o corpo tinha, não a doce flexibilidade que lhe era natural, porém uma elasticidade nervosa e convulsa, que o enrolava como a cauda de uma serpente na agonia. Em vez do seu hálito sempre perfumado, a boca exalava o bafo ardente de uma chama interior e o fumo alcoólico de espírito fortíssimo.