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Página:Maria Feio - Doida Não (1920).pdf/82

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Minha Senhora ― Eu tenho sofrido fundas agruras na minha penosa via-sacra de mulher, de vítima da sociedade e de idealista. Mas o destino reservou-me uma recompensa. Concedeu-me uma alegria infinita entre uma dôr imensa.

Tenho três netinhas que são quatro amôres. E quando os seus olhos transparentes como lagos e lindos como estrêlas me trazem a caricia da sua ternura; quando os seus bracitos carinhosos de sensiveis me enleiam o rôsto vincado pelo sofrimento, quando a melodia da sua vox querida e terna murmura enternecida ao ouvido encantado «vovó», florescem rosas de consolo e alegria em tôrno dos braços de uma cruz.

Esqueço toda a dôr, aparto-me de todas as maldades do mundo, refugio-me do ultrage de todos os ódios, de todas as ignorancias, e vejo só esta enternecedora inocência, concentro-me sómente na graça e no enlêvo dêste amôr que consola, alenta e purifica. Porque quando a aima é nobre, sacrifica aos afectos puros, todas as paixões em que se misturam laivos de pecado.

V. Ex.a tem um filho que a ama e que poderá em breve dar-lhe netos. Mas V. Ex.a nunca poderá sentir as alegrias e o consolo que eu experimento, se a paixão que a avassala fizer do coração desse filho um túmulo do afecto maternal.

A existência da avo terna e compassiva, ficaria sendo, talvez, um cemitério de amarguras, um exilio de afectos, de saúdades e desconsôlo recamado de urzes de martírio que nenhum outro amôr seria capaz de reverdescer.

E, por sobre tanta desolação, talvez as cinzas frias de uma paixão morta, requeimada, que deixaria de si apenas o