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                         O DRAMA DA GEADA   51

real, tiritante. E a noite caira rapida, sem preambulos. Deitei-me cedo, batendo o queixo e na cama, apesar de enleado em dois cobertores, permaneci entanguido uma boa hora antes que me viesse ferrar o somno. Acordou-me o sino da fazenda, pela madrugada e, sentindo-me enregelado, com os pés a doer, ergui-me para um exercicio violento, unico remedio efficaz em casos desses. Sahi para o terreiro. O relento estava de cortar as carnes — mas que maravilhoso espectaculo ! Brancuras por toda a parte. Chão, arvores, gramados e pastos eram, de ponta a ponta, um só atoalhado branco. As arvores, immoveis, inteiriçadas de frio, pareciam emersas dum banho de cal. Rebrilhos de gelo pelo chão. Aguas envidradas. As roupas dos varaes, têsas, como endurecidas em gomma forte. As palhas dos terreiros, os sabugos de ao pé do côcho, a telha dos muros, o topo dos moirões, a vara das cercas, o rebordo das taboas — tudo polvilhado de brancuras, lactescente, como chovido por um sacco de farinha. Maravilhoso quadro ! Invariavel que é a nossa paizagem,