Página:O Barao de Lavos (1908).djvu/117

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de fluctuar-lhe na alma, inconfessado, timido, o desejo de se apropriar, de tornar inseparável da sua aquella existência imprescindível... Por isso queria desbastal-o, afinal-o, fazel-o correcto, dandy, na previsão de ter de apresental-o um dia,—que diabo tinha! — ás pessôas das suas relações.

De seu lado o rapaz, cujo arguto espirito logo concebêra o plano de se arranjar, de se engrandecer, de entrar no mundo da influencia e do dinheiro pela mão deste cynico derrancado, ia escutando o mestre com a maior attenção, com o máximo aproveitamento. E as lições, favorecidas na confluência das duas vontades, déram optimo resultado. Mesmo Eugênio possuia esta assombrosa faculdade assimilativa, peculiar aos séres que o azar lançou á margem na via dolorosa da existência. Pouco a pouco, bruniu, afinou, metamorphoseou-se, adquiriu maneiras distinctas, esqueceu o calão das viellas, perdeu o gingar afadistado. A cutis do rosto amaciou e atrigou levemente,—d’este pallido macerado, aristocrático, das carnes formadas á sombra enlanguescente dos reposteiros; as mãos branquearam e afusaram; tomou brilho o ca- bello; os pés soffrèram o calçado; o tronco aprumou. Ao vêl-o passar agora, comedido, sério, os grandes olhos velados pelo côco de feltro branco, pequenino, redondo, fitinha estreita, a aba arpoada; o corpo correctamente moldado n’algum ligeiro cheviote escuro; em volta ao pescoço um laço de seda farto e negligente, — dir-se -hia um filho-familia que vinha da aula ou do escriptorio, ignorando ainda o mundo, vendo só claro na vida, ingênuo, simples.