Página:O Barao de Lavos (1908).djvu/46

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um desvio fisiológico, — uma diátese úrica que lhe espessava e abastardava o sangue, — dava-lhe uma facilidade simpática de adaptação a todas as vis aberrações da carne.

Um dia começou com ele a saciedade, o tédio. Acalmou, viu claro. Conheceu que, a continuar assim, ia entranhar-se, dissolver-se irremissivelmente na treva das ínfimas degradações, como um caminhante que deixa a estrada rútila de sol, lisa e direita, para entrar num emaranhamento negro de floresta. Teve medo. Lembrou-lhe então casar... Sorriu à ideia. Seria uma emoção nova; seria principalmente, com a sua imposição de deveres sacrossantos, um freio, uma norma séria e digna de viver. O casamento pois fascinou-o, como variante e como corretivo.

Ora, entre as famílias das suas relações, frequentava particularmente o barão a casa do Sr. Inácio Miguéis, antigo negociante de panos, vivendo anchamente do passivo de uma falência fraudulenta. Ele, a mulher e duas filhas casadoiras. Destas a mais velha, Elvira, não deixava de agradar ao barão. Irrequieta, nervosa, branca, pequenina, ressumava de todo o seu ser miudinho e frágil uma complexidade picante de mistério. Era o Desconhecido; era um problema vivo, — e delicioso problema! — a decifrar. Fez-lhe o barão a corte.

A rapariga no fundo não passava de uma burguesita imensamente leviana e sofrivelmente ignorante, extremosa mas fútil, não tendo da moral a compreensão mais estrita, e cultivando assiduamente por igual na janela do seu quarto os namoros e os amores-perfeitos. O natural era excelente, liso na intenção, apontando ao bem, simples, claro. Formada numa educação menos absurda que a lisboeta,