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FABULARIO PORTUGUÊS


— Amiguo, nom tomedes nojo nem percades por emde a terra; mas nós tomemos este meu marido e ponhamo-lo na forca e eu vollo ajudarey a enforcar: e a gemte cuydaria que he o que furtarom.

E assy o fezerom, e viuerom anbos casados em ssuas vidas.





       [Fl. 25-v.] Pom o poeta este emxemplo ssuso dicto pera [d]ar[1] emssynamento a nós, e diz que nom de[u]emos[2] creer nem ssiguyr[3] aa voomtade da molher, porque o sseu emtendimento nom he estauyll, mas muda-sse muytas vezes no dia. e Ssalamam diz: ffemyna nula bona, quya ter mutatur im ora. Diz ajmda: poucas uezes acaba cousa que compeçe; a molher he uaso de demonio que traz em ssy hũa doçe peçonha; a molher foy aquella que emganou Adam com outros gramdes ssabedores; a molher he hũu armuzello do demonio, e assy como o pescador pesca os peixes com o armuzello, assy a molher pesca os homẽes e manda-os ao Inferno breuemente; passa de ssabedor aquelle que sse d’ela pode guardar; a Virgem Maria ffoy aquella ssolamente que foy comprida de todas bondades e foy coroa de todalas boas molheres.


XXXV. [A rameira Tayda e o mancebo]

       [Fl. 26-r.][P]om ho poeta este emxenplo e diz que hũa[4] molher puta, que auia nome Tayda, muy fremosa, com ssuas doçes palauras enganava muytos homẽes.

Esta puta sse namorou d’hũu homem mançebo, e husando com ell, lleuou d’ell hũa ssoma de dinheiros; e ell ssentio-sse d’ella emganado, e apartou-sse e nom curaua mays d’ella. Veendo Tayda que ell nom ussaua com ella como ssoya, mandou por ell e disse-lhe que o amava, e que lhe oferecia sseu corpo ssem nhũu[5] preço. Ho mãçebo lhe rrespomdeo que ell a amaua, mas que nom queria mays converssar com ella, porque ja hũa vez o enganára, e nom queria que o mays enganasse.





Per este emxemplo este poeta nos amostra que polas cousas passadas deuemos a entemder as que ham-de uyr, e diz ajmda que o homem nom deue comverssar com aquelas persoas que useyras ssom d’enganar aquelles que emganar podem, pero que aquell que engana[6] hũa uez ho homem, cobijça de o enganar outra.

  1. Onde ponho colchetes o ms. está roto.
  2. Onde ponho colchetes o ms. está roto.
  3. No ms. ssiguyra, estando riscado o a.
  4. No ms. hua.
  5. Leia-se nehũu ou nem hũu.
  6. O copista tinha escrito enganam, e depois riscou o m.