E calcule-se, por outro lado, á medida que crescia a sua fama de causídico temivel e diserto, que se avolumavam as suas vitórias, — ele mesmo confessou, em 1880, ter libertado mais de 500 escravos — que se comentavam ruidosamente os triunfos de quem estava transformando a palavra, oral ou escrita, numa arma perigosíssima para as instituições, muito mais nociva e danosa para os interesses criados do que as leis solenes que o Parlamento produzia e que a sociedade não cumpria e deixava perimir, imagine-se a antipatia, a malquerença, a prevenção que os senhores lhe votavam, fechando-lhe a reputação, o bom nome, o credito e a propria existencia num circulo de desconfianças, de aversões e até de ameaças.
Das ameaças, ficou-nos um documento insuspeito. E’ a carta que escreveu ao filho, a 23 de setembro de 1870. Dizem que foi traçada pouco antes de seguir para o interior do Estado, onde ia defender um reu escravo. Embora dificil de averiguar, parece que a atmosfera formada em torno desse julgamento, pelos interessados na condenação do negro, autorizava a supor que a vida de Gama corria perigo e que sua cabeça estava a premio. Não me foi possivel apurar o caso, documentadamente. A carta, entretanto, não deixa duvida em que Gama atravessava um dos momentos mais críticos de sua vida e que tinha certeza de que pretendiam eliminá-lo. E’ o que se vai verificar, lendo-a: