dez fugidas. Em cada volta sofria um rigoroso castigo, incentivo para nova fuga.
A mania era péssima, o vício contagioso e perigosissima a imitação. Era indeclinavel um pronto e edificante castigo. Era a décima fugida, e dez são tambem os mandamentos da lei de Deus, um dos quais, o mais filosófico e mais salutar é castigar os que erram.
O escravo foi amarrado, foi despido, foi conduzido ao seio do cafezal, entre o bando, mudo, escuro, taciturno, dos aterrados parceiros: um Cristo negro que se ia sacrificar pelos irmãos de todas as cores.
Fizeram-no deitar, e cortaram-no a chicote, por todas as parte do corpo: o negro transformou-se em lazaro, o que era preto se tornou vermelho. Envolveram-no em trapos... Irrigaram-no de querozene, deitaram-lhe fogo... Auto-de-fé agrario!...
Foi o restabelecimento da Inquisição, foi o renovamento do touro de Falares, com a dispensa do simulacro de bronze, foi a figura das candeias vivas dos jardins romanos: davam-se, porem, aqui duas diferenças: a iluminação fazia-se em pleno dia; o combustor não estava de pé, empalado, estava decúbito; tinha por leito o chão, de que saíra e para o qual ia volver em cinzas.
Isso tudo consta de um auto, de um processo formal; está arquivado em cartório, enquanto o seu autor, rico, livre, poderoso, respeitado, entre sinceras homenagens, passeia ufano, por entre os seus iguais.