Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/246

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murcha as flores, quem desfolha o outono, quem amortalha as esperanças.

Macário: Quem é?

Satan: E depois o que viste?

Macário: Vi muita coisa. . . Eram mil vozes que rebentavam do abismo, ardentes de blasfêmia! Das montanhas e dos vales da terra, das noites de amor e das noites de agonia, dos leitos do noivado aos túmulos da morte erguia-se uma NOZ que dizia:-Cristo, sê maldito! Glória, três vezes glória ao anjo do mal!-E as estrelas fugiam chorando, derramando suas lágrimas de fogo. . . E uma figura amarelenta beijava a criação na fronte-e esse beijo deixava uma nódoa eterna. . .

Satan: Estás muito pálido. E contudo sonhaste só meia hora.

Macário: Eu pensei que era um século. O que um homem sente em cem anos não equivale a esse momento. Que estrela é aquela que caiu do céu, que ai é esse que gemeu nas brisas?

Satan: É um filho que o pai enjeitou. É um anjo que desliza