Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/325

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


no charco e ache ainda uma convulsão infame para dizer — sou feliz!...

Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples um fato velho e batido — uma pratica do mar, uma lei do naufrágio — a antropofagia.

Dois dias depois de acabados os alimentos, restavam três pessoas: eu, o comandante e ela — eram três figuras macilentas como o cadáver, cujos ] nus arquejavam como a agonia, cujos olhares fundos e sombrios se injetavam de sangue como a loucura.

O uso do mar — não quero dizer a voz da natureza física, o brado do egoísmo do homem — manda a morte de um para a vida de todos. — Tiramos a sorte — o comandante teve por lei morrer.

Então o instinto de vida se lhe despertou ainda Por um dia mais, de existência, mais um dia de fome e sede, de leito úmido e varrido pelos ventos frios do norte, mais umas horas mortas de blasfêmia e de agonia, de esperança e desespero — de orações e descrenças — de febre e de ânsia — o homem ajoelhou-se, chorou, gemeu a meus pés...

— Olhai, dizia o miserável, esperemos ate amanha. Deus terá compaixão de nos Por vossa mãe, pelas entranhas de vossa mãe!!! por Deus se ele existe! deixai, deixai-me ainda viver!

Oh! a esperança e pois como uma parasita que morde e despedaça o tronco, mas quando ele cai, quando morre e apodrece, ainda o aperta em seus convulsos