Página:Peregrinaçam 11 67v-73v.djvu/7

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Peregrinaçoẽs de

juſtiça. Vendo Antonio de Faria o mao deſpacho do Mandarim, & a ſoberba & deſcõcerto das palauras delle, ficou algum tanto triſte & malenconizado, porque entenedeo daquelle principio que ja auia de ter trabalho em libertar aquelles catiuos, & praticando eſte negocio particularmente com algũs que para iſſo foraõ chamados, não deixou ainda de auer algũas diuerſidades de pareceres, mas no fim dellas ſe veyo a concluyr que todauia lhe tornaſſe a mandar outro recado, em que com mais efficacia lhe pediſſe os ſeus homẽs, & que lhe daria por elles dous mil taeis em prata & fazenda, & ſenão que lhe fallaſſe muyto claro, & o deſenganaſſe, que ſe não auia de yr daly atè que lhos não mandaſſe, porque quiça que certificado deſta determinaçaõ, o medo lhe ſaria fazer o que pelas outras vias lhe negaua, quanto mais que pela via do intereſſe poderia ſer que ſe rendeſſe. Os meſmos dous Chins ſe tornaraõ a partir logo com eſte recado eſcrito em hũa carta cerrada como de hũa peſſoa para outra, ſem cerimonia de petição, nem outras vaidades que elles entre ly neſſes caſos gentilicamẽte cuſtumão, paraque viſſe o Mandarim na iſenção da carta quão determinado eſtaua no que lhe dezia. Porem antes que vâ mais por diante quero dizer ſòs dous pontos do que hia na carta, que foraõ cauſa de eſte negocio ſe danar de todo, dos quais hum foy dizerlhe Antonio de Faria que elle era hum mercador eſtrangeyro Portuguez de nação, que hia de veniaga para o porto de Liãpoo, onde auia muytos mercadores eſtantes na terra com ſuas fazendas que pagauão ſeus direytos cuſtumados, ſem nũca fazerem nella roubos nem males como elle dezia. E o outro põto foy dizerlhe que porque el Rey de Portugal ſeu ſenhor era com verdadeyra amizade irmão de el Rey da China, vinhão elles a ſua terra, como tambem os Chins por eſte reſpeito cuſtumauão yr a Malaca, onde eraõ tratados com toda a verdade, fauor, & juſtiça, ſem ſe lhes fazer agrauo nenhum. E ainda que o Mãdarim ambos eſtes pontos não ſofreo bem, todauia eſte derradeyro de dizer que el Rey de Portugal era irmão de el Rey da China, tomou tão mal, que ſem ter mais reſpeito a couſa algũa, mandou açoutar os dous que leuaraõ a carta & cortarlhe as orelhas, & os tornou aſsi a mandar com a repoſta para Antonio de Faria eſcrita num pedaço de papel roto que dezia aſsi, Bareja triſte, nacida de moſca enchar cada no mais cujo munturo que pode auer em mazmorras de preſos que nunca ſe alimparaõ, quem deu atreuimento a tua baixeza para perafuſar nas couſas do Ceo? porque mandando eu lèr a tua petição, em que, como a Senhor me pedias que ouueſſe piedade de ty que eras miſerauel & pobre, à qual eu, por ſer grandioſo, ja me tinha inclinado, & eſtaua quaſi ſatisfeito do pouco que dauas, tocou no ouuido de minhas orelhas a blasfemia de tua ſoberba, dizendo que o teu Rey era irmão do filho do

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