Página:Portugaliae Monumenta Historica - Scriptores, v. 1 fasc. 2.pdf/11

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se elle existisse no Archivo, onde apenas quarenta a cincoenta annos depois Lousada o foi encontrar, segundo se diz. Na verdade, o sincero Fr. Antonio Brandão cita o codice que continha os N.os I e II[1]; mas das suas palavras não se póde deduzir que tivesse visto o proprio codice. Foi Brandão um dos que se deixaram illudir pela supposta erudição de Lousada, a quem a maior parte dos escriptores seus contemporaneos não pouparam encomios. Assim é possivel que elle se refira a uma copia ou extracto de Lousada, e a propria citação da Monarchia Lusitana está indicando que já, quando Brandão escrevia, o codice da Torre havia desapparecido, o que favorece esta supposição.

Diz-se que alem do Livro Velho Lousada descubrira certas folhas de um livro de familias que remontava aos primeiros tempos da monarchia. Dellas affirma ter tirado copia, que nunca produziu. Essas folhas tambem desappareceram. O descubrimento feito por um unico individuo de dous manuscriptos ao mesmo tempo; o desapparecimento quasi simultaneo desses manuscriptos depois de copiados por elle; o logar onde se achavam, logar a que tinham tido accesso tantos escriptores e homens de letras, e onde nenhum destes os havia encontrado, e finalmente o caracter pouco honesto do descubridor são factos que conspiram para lançar sobre o Livro Velho terriveis suspeitas de não ser senão mais uma das muitas invenções dos falsarios dos fins do seculo XVI e principios do XVII entre os quaes Lousada foi um dos mais audazes.

Taes são as objecções principaes que se podem fazer contra a genuinidade do Livro Velho. As razões, porém, que favorecem essa genuinidade são em nosso entender de maior consideração.

A primeira, e para nós peremptoria, é a que se deduz dos caracteres litterarios do Livro Velho. A reputação de antiquario que Lousada disfructou entre os seus contemporaneos, era mentida. Foram justamente as suas invenções embusteiras, apparecendo maravilhosamente a ponto para favorecer as patranhas historicas então de moda, que lhe grangearam essa reputação immerecida. Quaes eram na verdade os conhecimentos historicos do consocio dos Britos, dos Higueras, e de outros impostores mais de um escriptor moderno o tem advertido[2]. Nem Lousada nem nenhum delles era capaz de dar aos dous monumentos que vão debaixo dos N.os I e II (permitta-se-nos a expressão) o sabor de antiguidade que nelles encontrâmos. Todas as invenções desses fabricantes de burlas, taes como o instrumento da Apparição, as côrtes de Lamego, o concilio de Braga sub Pancratiano, a correspondencia entre S. Bernardo e Affonso Henriques, as historias de Fuas Roupinho, do monge Velino ou da moura Saluquia etc., brigam de tal modo com a phrase, idioma e estylo dos monumentos legitimos, com os factos sociaes e politicos, com as idéas, instituições e costumes da epocha a que se referem, que movem a riso, e antes suscitam compaixão por seus auctores do que indignação. Nada, porém, se encontra no Livro Velho que traia por este lado a ignorancia atrevida de Lousada em fabricar textos, antes pelo contrario ha ahi allusões e vestígios de idéas e de factos sociaes, que uma erudição mais solida do que a sua não saberia facilmente inventar naquelle tempo[3]. Onde a impericia de Lousada apparece é nos erros de copia; mas esses mesmos erros estão revelando um original do seculo XIV, que elle nem sempre sabia ler[4], abonando assim a genuinidade dos dous monumentos que nos conservou.

O que seria possivel é que, para satisfazer a vaidade ou o interesse de algum individuo ou de alguma familia, fosse uma ou outra passagem viciada, supprimida, ou introduzida de novo por elle. O que tem tambem todos os visos de fabula é o descubrimento das taes folhas antiquissimas que nunca appareceram. Inventar, porém, na integra um monumento tão extenso revelaria singular paciencia, de que nenhum outro exemplo resta entre as invenções dos falsarios

  1. Mon. Luzit. P. III, l. 8, c. 31.
  2. M. Figueiredo, Dissertação I sobre ElR. D. Rodrigo, p. 23.—J. Anastacio de Figueiredo, N. Malta, P. II, p. 168, n.° 59.—J. P. Ribeiro, Memor. do R. Arch., f. 33 e segg. etc.
  3. Tal é, por exemplo, no N.° II referindo-se aos chefes de linhagem, áquelles d'entre os quaes se tiravam os ricos-homens, chamar-lhes filhos d'algo dos que devem a armar e crear. Esta phrase nenhum dos eruditos do principio do século XVII era capaz de a inventar. Torna-a intelligivel a leitura do Fuero Viejo, ainda então nem impresso, nem conhecido. A subscripção de N.° I nenhum dos imperitos embusteiros da eschola a que Lousada pertencia era capaz de a fingir tão natural e tão da epocha. Poderia, todavia, ser transcripta de algum outro codice do seculo XIV.
  4. Como na palavra conde, que elle copia con porque no codice estaria coñ, em conquerer (conquistar) que copia com querer, em del ante que copia delante, em Laude (appelido) que copia Lande, etc. A pontuação que deu ao texto, o qual provavelmente nenhuma tinha, está tambem mostrando que muitas vezes transcrevia sem entender o que lia.